Serializado ou episódico?

27jul10

Recentemente eu me peguei refletindo sobre seriados de televisão, sobre as obras que me conquistaram completamente e sobre as outras trocentas porcarias que infestam os canais de TV a cabo com uma frequência mensal. E percebi que existe um padrão bastante elementar que diferencia os seriados que amo daqueles que odeio: programas como The Wire, Deadwood e Família Soprano, em maior ou menor grau, contam com uma estrutura narrativa serializada, onde uma história completa é contada ao longo dos episódios, que funcionam, basicamente, como capítulos de uma grande narrativa. No espectro oposto, encontramos dramas como House, The Mentalist e Law & Order, com estrutura formulaica, onde cada episódio apresenta um desafio diferente e conta uma história auto-contida.

Os três programas citados são exemplares dos gêneros mais comuns em seriados episódicos, que são aqueles que retratam o cotidiano de médicos, policiais e advogados. É uma estrutura fácil de se conceber e direcionada ao espectador casual, que não tem interesse ou tempo disponível para acompanhar todos os capítulos de um seriado enquanto vão sendo exibidos. Como os dramas episódicos raramente ofecerem mudanças radicais nos personagens e não contam com arcos narrativos, os episódios são instantaneamente acessíveis, podendo ser assistidos praticamente em qualquer ordem. Pegar um episódio pela metade também não representa um problema muito grande. Assim, torna-se fácil perceber por que esse tipo de programa atrai audiências muito maiores: Prison Break, serializado, teve uma primeira temporada com índice de audiência de 9 milhões de espectadores; The Mentalist,  um drama policial episódico à moda antiga (para não dizer dolorosamente antiquado), atraiu mais de 17 milhões.

A aderência a esses dois tipos de estrutura varia de seriado em seriado. Se, por um lado, temos Law & Order, que, mesmo em sua 20ª temporada, ainda encontra-se completamente engessado em sua fórmula original, e, fazendo oposição a esse modelo, temos um drama como The Wire, cuja narrativa meticulosamente construída através de capítulos torna inadmissível perder um episódio, a verdade é que a maioria dos seriados não é tão radical. Uma terceira variação é a dos programas que, apesar de manterem uma estrutura formulaica de “monstro/caso/paciente da semana”, acabam construindo uma trama maior que é desenvolvida de temporada em temporada, ocasionalmente dedicando episódios inteiros à construção dessa narrativa. É o caso de Fringe, Arquivo X e The Good Wife. Família Soprano conta uma história completa por temporada, mas torna-se mais segmentado ao dedicar determinados episódios ao desenvolvimento de certos personagens, o que também é bastante comum.

Isso tudo para chegar à conclusão de que, se a acessibilidade é uma importante vantagem dos programas episódicos, a repetitividade, a falta de profundidade e a aderência ao status quo são características intrínsecas desse tipo de estrutura narrativa, falhas que sempre debilitam minha capacidade de apreciar um seriado. Especialmente quando se tem contato com uma série através de DVDs, acompanhando um episódio depois do outro, fica fácil perceber que programas serializados, em geral, são mais interessantes, por oferecerem mais reviravoltas, desenvolvimento dos personagens mais aprofundado e uma trama mais bem construída que recompensa o espectador dedicado.

Mas esse tipo de programa parece estar se tornando mais escasso. Se Família Soprano era um fenômeno absoluto há alguns anos, hoje em dia o panorama televisivo está sendo cada vez mais dominado por séries com fórmulas testadas e aprovadas, como o já citado The Mentalist, Lie to Me, Bones e Supernatural. Com dificuldade para manter uma audiência estável,  os serializados parecem estar sendo relegados aos canais americanos de TV a cabo. A recessão americana parece ter desencorajado as emissoras abertas a se arriscarem com seriados mais complexos, e é bem provável que a nova era de ouro da televisão esteja chegando ao fim. Ao menos ainda há espaço em canais como AMC, Showtime e HBO para programas como Mad Men, Dexter e Treme.



2 Responses to “Serializado ou episódico?”

  1. 1 Ivan Costa

    Viva os Serializados!!

    Todas as minhas series favoritas são neste estilo..
    Dexter, Lost, Prison Break, Fringe..

    eu gosto de alguns dos episódicos!
    maaas acho o outro estilo mais interessante!


  1. 1 Televisão para quem tem déficit de atenção « CONTRAMANIFESTO

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