The Good Wife

05ago10

Quando comentei com alguns amigos sobre minha crescente admiração por The Good Wife, muitos acharam que eu estava brincando. O programa, a princípio, não parece muito diferente das outras inúmeras e indistinguíveis séries sobre firmas de advocacia às quais eu jamais desperdiçaria um minuto da minha vida assistindo. Não fôsse a recomendação cuidadosamente embasada daquela que virou minha blogueira e crítica literária preferida, Abigail Nussbaum, eu jamais teria dedicado atenção à série. Com apenas três episódios para terminar a primeira temporada, no entanto, eu me sinto confortável ao afirmar que The Good Wife é não apenas um dos mais interessantes seriados exibidos atualmente, como também um material obrigatório para todas as pessoas que sentem falta de mulheres fortes e decididas em obras de ficção.

A personagem principal é Alicia Florick, mulher de um Procurador-Geral de Justiça que foi preso sob acusação de ter se envolvido em um escândalo de corrupção e sexo com prostitutas. Alicia passou muitos anos  como dona-de-casa de subúrbio, mas, subitamente, viu-se obrigada a representar o papel de “boa esposa” durante o escrutínio midiático e, meses depois, decidiu voltar a trabalhar para sustentar a família e o julgamento do marido infiel, conquistando um cargo como associada júnior em uma prestigiosa firma de advocacia.

A maior diferença entre esta série e outros programas de advogados é que The Good Wife é, em várias camadas, um seriado sobre política. Apesar de adotar uma estrutura de “cliente da semana”, a série dedica uma boa parte dos episódios aos jogos de poder que permeiam o judiciário. Peter Florick, o marido de Alicia, antagoniza o atual Procurador-Geral de Justiça não por lutar por sua absolvição, mas por manifestar intenção de retomar o seu cargo (diferentemente do Brasil, onde o judiciário é hermeticamente isolado de intervenções democráticas, os Procuradores-Gerais de Justiça dos EUA são eleitos pela população). A própria firma em que Alicia trabalha representa um microcosmo dessas intrigas, e constantes batalhas por influência envolvem diversos personagens ao longo da primeira temporada: Alicia disputa a posição de associada com Cary, enquanto Diane e Will, os dois sócios majoritários da firma, frequentemente manifestam opiniões opostas em relação à direção da empresa. Muitos personagens utilizam de posições privilegiadas e manobras  questionáveis para deixarem seus competidores para trás, e o programa demonstra toda sua ambição e inteligência ao se recusar a estabelecer uma divisão clara entre heróis e vilões e ao procurar analisar a linha tênue que separa o aceitável e o inaceitável na disputa por poder. Como passar por cima dos outros, utilizando-se de benefícios individuais, para subir na carreira de maneira ética? Isso é sequer possível?

Ao abordar esses questionamentos o programa acaba manifestando um profundo cinismo em relação à eficácia do sistema legal. The Good Wife argumenta que existe uma inevitável ligação entre o poder público e o privado: conquistar influência entre agentes públicos é um importante passo para suceder como advogado (“A justiça pode ser cega, mas os juízes certamente não são”, afirma Will), e é ninguém menos que a própria Alicia que utiliza, mesmo que relutantemente, as conexões políticas de seu marido em benefício de seus casos. Ao retratar as táticas utilizadas para manipular juízes e jurados, o programa deixa claro que o resultado de um julgamento é tão dependente de mentiras e manobras traiçoeiras quanto de conhecimento legal. Além disso, os valores dos advogados são postos em jogo quando têm que defender clientes poderosos e inescrupulosos (como seguradoras e empresas farmacêuticas) ou que provavelmente cometeram o crime pelo qual foram acusados. Nesse sentido, não pude deixar de lembrar do advogado defensor de traficantes do seriado The Wire, Maurice Levy, e em como o cultivo de uma criatura repugnante como essa é encorajado pelo sistema judiciário.

A série também aborda a questão do feminismo no século XXI e das mulheres no ambiente de trabalho,  apresentando uma coleção de profissionais fortes, com personalidades variadas e métodos igualmente diferentes para atingirem seus objetivos. Um dos aspectos que tornam o seriado instigante é o fato de, como Nussbaum descreveu perfeitamente em seu blog, The Good Wife ser um seriado sobre mulheres em um mundo dominado por homens. Várias personagens utilizam suas feminilidades para atingirem seus objetivos, e aqui o programa também aplica seus questionamentos sobre ética de trabalho ao perguntar se é justo esperar que essas mulheres devam agir diferente. No mundo predatório e machista da advocacia, um lugar onde o sexismo é discreto e condescendente, por que não transformar uma aparente fraqueza em uma arma?

Com um elenco competente, personagens carismáticos, dialógos afiados e até mesmo uma pitada de conflito novelesco (Alicia perdoará o marido ou ficará com Will, seu chefe?) The Good Wife é o exemplo raro de produto televisivo que diverte ao mesmo tempo em que suscita discussões intrigantes.

OBS: Já estou apaixonado pela atriz que interpreta Alicia. Ela tem aquela aura simultaneamente conservadora e sensual de profissionais executivas que eu acho absolutamente irresistível. Só comentando.



2 Responses to “The Good Wife”

  1. 1 Ivan Costa

    Esse blog ta cheirando a mofo..


  1. 1 Televisão para quem tem déficit de atenção « CONTRAMANIFESTO

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