Bonitinhos mas ordinários
Há algumas semanas, um vídeo foi postado no Youtube mostrando cenas de filmes em que Natalie Portman derrama-se em lágrimas. Não tenho certeza quanto à intenção da postagem, se foi uma mera homenagem ou uma crítica à capacidade da moça, mas, devo admitir, foi o segundo sentimento que cruzou minha mente ao ver a bela atriz chorando em diversas cenas. Óbvio, um vídeo não prova nada, muito menos uma montagem criada para provocar um efeito específico. Mas não deixa de ser curioso.
Quando assisti Cisne Negro, fiquei impressionado com o retrato assustador do submundo do balé profissional, com a beleza da cinematografia e, principalmente, com a atuação dura, unidimensional e carente de sutileza de Portman durante a maior parte da projeção. Interpretando uma personagem cujos maneirismos dão vazão a algumas das piores tendências da jovem atriz, a Nina de Portman mostra-se sempre sofrida, assustada e incapaz de retirar qualquer resquício de alegria do mundo ao seu redor. Apesar de encaixar-se bem nos propósitos do papel, duvido que o trabalho de composição da personagem tenha sido minimamente difícil para Portman, não tanto quanto as coreografias necessárias para as cenas de dança da bailarina. Portman interpretou uma versão menos exagerada desse papel durante toda sua carreira, e quando os elogios da crítica especializada e a indicação ao Oscar pipocaram, não pude deixar de ficar um pouco surpreso.

Mas acho que estou sendo injusto com a jovem atriz. Meu problema, acredito, reside em uma mudança de atitude na indústria do cinema. Se antes tínhamos lendas cinematográficas com aparência mediana ou com uma beleza, digamos, heterodoxa, como Pacino, De Niro, Steve McQueen e Gary Cooper, hoje o panorama é dominado por rostos bonitos e juvenis. Quando um destes modelos de beleza que dominam as telas acaba revelando algum resquício de talento, ficamos agradavelmente surpresos e passamos a defendê-los com unhas e dentes. Apenas isso para explicar o número incontável de defensores de atrizes como Keira Knightley e Angelina Jolie, mulheres relativamente talentosas que, no entanto, passam longe da genialidade de uma Khandi Alexander (injustamente relegada a seriados de televisão), uma Maggie Gyllenhall ou uma Ellen Burstyn. Lembro-me que vários anos tiveram que passar após a estreia de Encontros e Desencontros para que as pessoas começassem a perceber que o talento de Scarlet Johansson é inversamente proporcional ao tamanho de seus s… saltos. Quando Mickey Rourke foi indicado por O Lutador, o que mais se comentava era como o rapaz bonito e charmoso de Coração Satânico havia ficado tão… feio. E eu não posso deixar de comentar que, toda vez que entro em alguma conversa sobre o talento de atrizes femininas, o assunto inevitavelmente muda para a beleza de cada uma.

Quando vejo DiCaprio franzindo a sobrancelha com intensidade suficiente para atrair a atenção da Academia, fico preocupado que o rapaz venha a sofrer um aneurisma no meio da projeção. Quando vejo o elenco de The Wire, com muitos integrantes tirados diretamente das ruas de Baltimore, perco-me naqueles papéis a ponto de não conseguir enxergar atores ou atrizes, apenas policiais, gângsteres, viciados e políticos. Sam Rockwell, dificilmente referido como galã, merecia uma multidade de prêmios por sua atuação contida e repleta de camadas em Lunar, mas sequer recebeu uma indicação.
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